Falo para os povos cheios de sereas

Standard

Hai meses que fixemos un videopoema que, finalmente, foi recortado e recomprimido mil veces para poder axustalo ás bases do concurso de fliporto 2009 no que quedamos finalistas. Por ese motivo a versión final non era do noso agrado e como non era xusto que a cousa quedase así esta é unha versión próxima á que queríamos facer inicialmente.

[A versión enviada ao concurso foi esta: Falo como irmã aos povos cheios de sereias]

E este o fantástico poema de Iolanda Gomis no que se basea o videopoema:

Falo para os povos cheios de sereias
Falo comoa irma dos povos cheios de sereias,
falo envolta nos lenços entre os que dormes,
falo por dentro das consciências e dos dias,
falo para cada uma das almas que caminha comigo com novo passo.
Falo como irma para os povos cheios de sereias,
colgando da minha pele chegam barcos todos os dias.
Desde o norte frio do fim do mundo
conto histórias que um dia outros sonharom.
Falando com as ondas que batem noutras praias,
fabrico cançoes com vontade de cruzar oceanos de nostalgia.
Nas cantigas velhas da memoria escrebo,
escrebo na onda do mar que buscou meu amigo,
escrebo na onda do mar que busca o samba.
Partilhando com a lua
pensamentos que penduram dos cabelos
caminho sobre uma e outra pedra
e no meio mesmo da pedra
encontro um caminho cheio de esperança.
Caim folhas novas das árbores mais velhas desta fraga
e digo adeus aos rios e à força do vento.
Digo-lhes adeus quando vos vou visitar em sonhos
a terras afastadas de palmeiras e páu de açúcar.
A minha terra não tem palmeiras
mais tem rios e prados e muita água caindo nos olhos.
Não sou de longe nem de perto,
nem do sol ou da lua nova,
levo colados à pele muitos anacos duma memória excindida.
A memória que fugiu nos barcos e nas expediçoes,
a memória de milhoes e milhoes de escravas,
a memória dos povos que éramos antes da invasao dos tempos.
Caminham ao meu rente muitos homes,
também caminham mulheres e cavalos.
Se as nosas palavras sao as mesmas,
se os nossos sofrimentos também sao os mesmos.
Se é que temos a mesma dor nas feridas,
se é que eu sou a irma da lua,
se é que eu falo como uma irma.
E eles sao os sapos,
os outros colados a um mundo morto,
perdidos da verdade fugem ao escuro
para derrubar os sonhos de tudo.
Abaixo os puristas,
todas as pessoas com o seu alento para criar, todas,
todo o feio, suxo e infértil, todo,
os erros, as incorrecçoes, todas,
as naçoes sem protocolo nem carta de felicitaçoes ao senhor director, todas.
Abaixo os puristas, não quero saber da vida que não é libertaçao.
E que venham a través de min muitas vozes,
vozes longo tempo silenciadas,
vozes de innumerábeis naçoes escravas,
porque quero ser a vossa voz,
a calor do vosso rosto,
a lua nova da madrugada.
Junto à estrela da manha
debujarei de novo a vida
para cantar com todas as vozes que habitan nos nossos olhos,
para cantar também aos que estao por vir
para humilhar uma a uma todas as geraçoes,
para que venham outras nascidas de areia,
para seguir vivendo o tempo eterno da palavra.
Outorgo o meu nome à vorágine dos tempos,
para xantar palavras envoltas em sonhos,
para construír a vida infinita que olhamos,
por trás dos vidros das viagens ao longo das marés.
Falo comoa irma dos povos cheios de sereias,
falo envolta nos lenços entre os que dormes,
falo por dentro das consciências e dos dias,
falo para cada uma das almas que caminha comigo com novo passo.
Na fronte levo milhoes de estrelas,
nas maos uma cançao eterna,
Caminho rompendo as cadeais
impostas á liberdade da minha mente,
e começo tudo com um sim,
porque neste tempo de emergência e calamidade pública
falta ainda a resposta.
Oh Wall Street lameiro luminoso,
deixa sair já a voz da civilizaçao enterrada no ouro preto,
deixa aboiar a longa noite que nos fixo renascer com a lua,
deixa que soprem os berros do presente ao pasado num futuro incerto,
deixa nascer as frores sobre as estrelas novas
penduradas deste infinito céu.
Falo comoa irma dos povos cheios de sereias,
Falo comoa irma dos povos cheios de sereias,
falo envolta nos lenços entre os que dormes,
falo por dentro das consciências e dos dias,
falo para cada uma das almas que caminha comigo com novo passo.

Iolanda Gomis Parada